Gazeta Centro-Sul

20/02/2012 - 12h03min

Daniel Andriotti

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Ô xente, meu rei

‘Cê já foi à Bahia, nêgo? Pois então vá !’. Em época de carnaval, nada como uma frase da música de Dorival Caymmi, uma das relíquias humanas da “boa terra” que _ até fazer a ‘passagem’ há bem pouco tempo _, curtiu mais de 80 anos deitado numa rede pendurada na varanda da sua casa com vista para o mar, em Itapoã. Seus conterrâneos mais famosos são ACM, Gil, Gal, Caê _ todos com apenas três letras para não dar muito trabalho na pronúncia. E, entre outros tantos filhos de gândhi, tem os nomes mais complicados: Béthânia (coloquei o acento no “e” para fidelizar o sotaque), Dãniéla (mesmo caso), Ivete, Claudia Leite, Carlinhos (ele mesmo, o Brown, genro do Chico Buarque), Netinho e (fale bem baixinho agora), João Gilberto.

Salvador, até bem pouco tempo, era cult. Agora é pop. Ouve-se só e somente só axé music em bares, igrejas, creches, jardins de infância, velórios. Férias em Salvador é um ótimo negócio. Desde que não seja no Carnaval. Morar lá...deve ser problema para quem não é de lá. Tudo o que é sério, não é levado a sério na Bahia. Turista desavisado padece. De abril a novembro, os finais de semana são de pura micaretagem, que nada mais é do que um aquecimento para os outros quatro meses não-citados: dezembro, janeiro, fevereiro e março, pequeno e rápido período em que dura o carnaval da Bahia. A micareta resiste, em média, “apenas” 72 horas e consiste na passagem de vários trios elétricos que arrastam multidões. Caê já dizia: “...atrás dele só não vai quem já morreu”. Quem compra o abadá (camiseta personalizada que permite correr atrás do trio elétrico guarnecido por seguranças num cordão de isolamento) paga uma pequena fortuna mas leva uma grande vantagem sobre os “pipocas” - aqueles que não compram o abadá e são submetidos a empurrões, sopapos, pisoteadas, cotovelaços, latas de cerveja na cabeça (muitas delas cheias de um líquido estranho, quente e amarelado) e suor alheio de odor não-muito agradável. Tem quem goste. E tem bastante gente que gosta.

Ir à Bahia e não assistir a um ensaio do Olodum, do Ara Ketu ou da Timbalada, é mais ou menos como ir à Roma e não ver o Papa. Todos esses grupos originaram-se do primeiro. A batida e a ideologia são as mesmas. A dissidência se deu por desacerto financeiro. O Olodum, banda oficial do Pelô, apresenta-se duas vezes por semana. Uma para a turistada branquela, com cobrança de ingresso. Mas, em meia hora, os gringos batem em retirada pois as cinturas enrijecidas não aguentam. É demais meu rei (para eles). No domingo, o show é de graça e no Candeal (Candyall Guetho Square, é mole?). Marcado para às 18 horas mas começa sempre às 21...22....23. Lá dentro, os convivas percorrem “voltas e mais voltas no gheto” (ao redor do palco) e a coisa não tem hora para acabar. Até porque, na segunda-feira, ninguém trabalha mesmo. O grito de guerra “ô, meu pai!”, tradicionalmente abre o ensaio do Ara Ketu (aquele em que o corpo estremece, as pernas desobedecem e inconscientemente a gente dança...).

E, quando a fome aperta, o fast food da Bahia é feito de massa de feijão-fradinho frita no dendê, recheada com vatapá, camarão seco, salada de tomate picadinho e pimenta. Mas muita pimenta. Esse é o chamado “acarajé completo”. É feito na rua, por senhoras negras e gordas vestidas de branco. Ao lado de suas barracas, elas cobram de R$ 10,00 a R$ 50,00 para aparecerem numa foto com a gringada (o valor depende da maior ou menor aparência de otário de quem solicita). E para beber, não vai nada? Cerveja quente em copo pequeno, estilo massa-de-tomate e com preço de uísque escocês. Ou uma “róska”, abreviatura de caipiróska. As mais tradicionais são de kiwi, morango, abacaxi, cajú, umbu-cajá, manga, pitanga, sirigüela... todas, é claro, com vodka e canudinho, que é para derrubar mais rápido.

Não é à toa que o Brasil começou por lá...

Daniel Andriotti

danielba@terra.com.br

Publicado em 18/2/12.

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