20/02/2012 - 15h09min
Na grande livraria, escolhendo CDs, encontrei um de Whitney Houston, a extraordinária voz que se calou dias atrás em consequência de overdose de medicamentos combinada com ingesta de bebida alcoólica. Parecido com o que aconteceu com Amy Winehouse, Michael Jackson e Elis Regina, todos com raro talento artístico e a capacidade de nos emocionarem com belas canções, de tocarem nossas almas. Gente bonita e rica que, inexplicavelmente, abreviou a própria vida sabe-se lá por quê.
Talvez por tudo isso em demasia, pensei, lembrando do que aprendi sobre a importância da cotidiana luta para conquistar o que se quer, bem como a necessária manutenção do querer.
Tudo que é muito fácil de se conseguir em seguida perde a graça, costumava ouvir essa frase com frequência nos meus tempos estudantis. Da teoria de inspiração freudiana que os mais velhos disseminavam, também fazia parte o complemento de que a vida precisa acontecer por meio de conquistas diárias, de sonhos e vontades de realizá-los, de desejos, de quereres.
Porque, assim não sendo, nada parece ter valor, a gente nunca se contenta, corremos o risco de jogar fora o que já temos.
Precisamos querer, depois lutar para conquistar, para então darmos valor à vida. Se assim não for, corremos o risco da insatisfação permanente
Verdade seja dita, já duvidei desta máxima, especialmente nos dias de muito trabalho e faculdade à noite, enfrentando filas de lotações e cochilando, cabeça apoiada em livro de cálculo feito de travesseiro, no ônibus que me levava de volta para casa já passando da meia-noite. Mas fui assimilando o significado daquelas palavras, compreendendo a mensagem.
Entendi de uma vez por todas a teoria do querer durante conversa com uma colega de aula, quando ela me contou da tristeza que sentia por ter sido criada com tanta liberdade. Desde criança, tudo aquilo que queria fazer lhe era permitido, ganhava todas as bonecas, tinha conta no bar da escola, escolhia seus presentes, dormia na hora que quisesse. E com apenas treze anos já frequentava festas noturnas livremente, estipulando horários de ida e vinda ao seu bel prazer de adolescente. Em seu desabafo, me confessou aquela amiga de estudos que, talvez na ânsia de lhe proporcionarem felicidade, seus pais pareciam, na verdade, não se importarem com ela. Por conta dessa situação, tornara-se uma jovem com dificuldades de realmente gostar de alguma coisa, sem preferências por presentes ou passeios, sem desejo. Teve demais antes do tempo, sequestraram o seu querer.
De volta à casa, ouvindo boa música, recordei das conversas filosóficas que tínhamos, eu e minha colega de faculdade, nos ligeiros intervalos entre as tantas matemáticas, da felicidade em que fiquei quando soube, anos atrás, que ela tinha se recuperado do trauma, resgatara seus quereres.
E lamentei por Whitney Houston, Amy Winehouse, Michael Jackson e Elis Regina, que não tiveram a mesma sorte.
CristinaAndré
cristina.andre@gazetacentro-sul.com.br
Publicado em 18/2/12
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