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Quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

17/05/2021 - 13h25min

Daniel Andriotti

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Chacina ou Faxina?

No Brasil tudo vira torcida. E todo mundo é especialista em segurança pública até escutar o primeiro tiro. Por isso a maioria das pessoas que tomou conhecimento da ação policial que resultou na morte de 28 pessoas na semana passada no Jacarezinho – uma das maiores e mais violentas favelas do Rio de Janeiro – já escolheu um lado: o da polícia, que perdeu um dos seus homens alvejado na cabeça tão logo desembarcou de um blindado quando chegava no morro; ou o lado dos 27 mortos aqui representados pelo crime organizado. Isso não sou eu que estou dizendo. É a Justiça que identificou 25 deles com antecedentes criminais e outros dois ligados ao tráfico de drogas.


Boa parte da imprensa e da chamada ‘população mais esclarecida’ já carimbaram a ação como “chacina” ou “massacre”, enquanto que a torcida adversária prefere chamar de “faxina”. Embora se saiba que o “caveirão” nunca sobe o morro à toa, o fato é que as circunstâncias do que realmente aconteceu ainda não foram bem esclarecidas. Ou, pelo contrário: as coisas podem ter ficado muito claras no momento em que um policial foi abatido logo no início da intervenção. É ingenuidade achar que não há um terror imposto pelo crime organizado ou pensar que os traficantes reagem de forma bondosa ao ver policiais entrando nas comunidades.


Acontece que o ministro Edson Fachin, do STF – na sua tradicional ‘inversão de valores’ – havia proibido esse tipo de operação policial nas favelas cariocas durante a pandemia, salvo raríssimas exceções muito específicas. Com isso, e não por acaso, deu um generoso espaço de tempo para que o tráfico pudesse se estruturar ainda mais. Após a operação do último dia 6, o mesmo STF solicitou uma investigação rigorosa sobre a conduta da polícia, ‘sugerindo’ que há ‘indícios’ de uma execução arbitrária. Isso diz muito sobre o STF: a preocupação com um único lado da moeda.


O que não foi divulgado – e isso é compreensível pela estratégia de inteligência – é que a polícia entrou no Jacarezinho após uma minuciosa investigação que durou mais de dez meses. E, entre as tantas descobertas, está o fato de que o Comando Vermelho, uma das maiores organizações criminosas da América Latina, aliciava continuamente crianças para o tráfico de drogas, expulsava moradores das suas casas e executava sumariamente aqueles que criavam algum tipo de inimizade com o grupo.


Conheci algumas pessoas que lutam voluntariamente para tirar jovens do mundo do tráfico. É uma tarefa árdua, difícil. Isso porque o crime oferece grandes quantias de dinheiro em troca de trabalho sujo. Seduzidos e sem perspectiva, muitos aceitam. Depois, empolgados com o dinheiro fácil, vão sendo ‘promovidos’ na hierarquia da facção até chegarem à liderança que vão perder logo ali na frente. E nunca é por aposentadoria...


Não é de hoje que a polícia do Rio de Janeiro sofre acusações de ser violenta em ações de combate ao tráfico de drogas. A de São Paulo já foi tida como a número um do mundo. Mas quando a autoridade policial é recebida a tiros numa determinada comunidade, qual é o papel da polícia? De onde partem os tiros contra os blindados? Eu nunca ouvi falar que um cidadão de bem tenha trocado tiros com a polícia sem sequer ser abordado. Mais um motivo que torna quase irracional alguém tomar partido em ações como essas.


Entre a polícia e os bandidos está a comunidade que, em última instância, acaba sendo a maior vítima. Ao contrário do que já ouvi algumas vezes, as pessoas que residem na favela não admiram esse tipo de controle porque sabem que se trata de uma guerra urbana, cruel e sem fim. E quando há um poder de fogo enorme sob o domínio de facções e milícias ninguém pode viver em paz. Mas quem sustenta tudo isso está fora do morro, protegido pelos seus apartamentos de classe média alta, de frente pro mar e com vidraças à prova de balas. Só aguardando pela chegada do delivery...

Daniel Andriotti

Publicado em 14/5/21.

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