06/02/2012 - 09h04min
Tenho um amigo que se diz ‘prejudicado financeiro’. Ele garante que é pobre de dinheiro mas não de espírito. Por isso, tem sempre frases didáticas sobre o assunto na ponta da língua: “Deus realmente deve amar demais aos pobres. Caso contrário não teria colocado tantos no mundo”. Ou então: “Queria ser pobre um dia só. Porque ser pobre todos os dias é dose”.
Os ricos, na verdade, são pessoas diferentes. Aliás, bem diferentes de todas aquelas que conhecemos ‘de perto’. Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores americanos da chamada “geração perdida” do século XX, escreveu em The Last Tycoon (O Último Magnata) seu derradeiro romance publicado em 1939, que é possível sim, conviver com gente rica, conversar sobre assuntos cotidianos, frequentar muitos lugares em comum, tocer para o mesmo time e partilhar dessa ou daquela ideia semelhante. Ele tinha motivos para escrever sobre isso pois conviveu com ‘esse tipo de gente’ - principalmente depois que se tornou um deles graças aos best sellers “Suave é a Noite” e “O Grande Gatsby” -, e em seguida morrer por problemas de saúde em decorrência do alcoolismo.
Mas a sinergia entre os pobres mortais e os verdadeiramente ricos não vai muito além disso porque mais cedo ou mais tarde as diferenças começam a se acentuar e a gente percebe que vive num mundo (ou num planeta) bem distante daquele que ‘eles’ habitam. E então ‘cai a ficha’ de que a nossa espécie não é a mesma.
É preciso no entanto, saber a exata diferença entre ser rico e ter muito dinheiro. Vamos a um exemplo prático: há um programa na Band, do tipo reality show, chamado “Mulheres Ricas”. Ali, cinco senhoras paranoicamente deslumbradas, imaginam ter muito dinheiro mas comportam-se genericamente como pobres em absolutamente tudo. Principalmente no espírito. Isso a gente percebe logo ao assistir os primeiros 30 segundos do programa.
A revista Veja publicou uma reportagem que informa ser por volta de 145 mil o atual número de milionários no Brasil. E ainda: que a cada dia, 19 cidadãos passam a integrar esse seleto grupo. E acreditem ou não: essa brutal desigualdade da riqueza no País revela que para os ricos ficarem mais ricos, os pobres não precisam - necessariamente -, ficarem mais pobres. Se é que isso é possível, uma coisa independe da outra.
Mas como identificar, afinal, alguém rico? O único lugar onde as pessoas enchem a boca dizendo “eu sou muito rico”, aos gritos pela rua, é nas novelas da Globo. Na vida real é bem provável que jamais ouçamos tão sublime e ameaçadora frase. Ser rico, na literatura do economês, é o sujeito que tem um patrimônio muito acima de um determinado valor, em dólares, que ultrapassa os limites que a maioria absoluta das pessoas - em toda a humanidade - jamais terá. Simples assim. Portanto, os ricos não bons ou maus, nem melhores nem piores. São apenas diferentes.
Esse mesmo amigo de quem iniciei falando, garante que todo pobre como ele, tem que ter vocação para filósofo de boteco. E conta que a professora explanava em sala de aula. “Meus queridos alunos, ninguém pode ter tudo...”, quando foi interrompida por uma menina. “Meu pai tem tudo, prôfi. Ele é muito rico”. A bondosa mestra questionou: “Ele tem um avião?”. A menina pensou por uns instantes e admitiu que não. Nisso uma outra menina disse. “Meu pai tem um avião”. E a professora: “E ele tem um iate ancorado em Mônaco?”. A menina abaixou os olhos e sacudiu negativamente a cabeça. Nisso, Juquinha, o maior pé rapado da classe, sentenciou: “Meu pai, sim, tem tudo”. E, mais uma vez, a professora tentou argumentar: “por quê você chegou a essa conclusão?”. E o menino: “a gente tava no nosso barraco, lá no morro, quando chegou a minha irmã, adolescente, de mãos dadas com um cara que apresentou como namorado dela. O sujeito vestia camisa regata do NX Zero, bermuda colorida que permitia aparecer a cueca, correntão de lata no pescoço, boné com a aba virada para trás, óculos espelhado comprado do camelô, brincos nas orelhas, tatuagens e piercings por todo o corpo, além de cabelo descolorido pela água oxigenada. Quando viu aquilo, meu pai disse: - Era só o que me faltava”.
Daniel Andriotti
Publicado em 4/2/12.
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