23/01/2012 - 09h13min
Semana passada (re)iniciou a tortura do BBB - Big Bobo Brasil, um programa que privilegia o vulgar em detrimento da ética. E não adianta a gente querer espernear e jurar que não assiste ou ‘dá só uma espiadinha’ por acaso quando passa em frente da TV. Além disso, quem tenta ‘se livrar’ do programinha bestial (que rima com Pedro Bial) acaba sendo massificado por uma carga de notícias, informações e fofocas sobre ele. Inclusive por todos os veículos impressos e eletrônicos concorrentes da Globo.
Dessa vez, no entanto, a coisa não começou xoxa como um jogo amistoso entre Olaria e Madureira: logo nos primeiros dias de festa e bebedeira já se ouviu muito mais palavrões do que gentilezas, que desencadeou um suposto caso de abuso sexual (ou estupro), expulsão da casa, acusações de racismo, polícia no Projac... baixaria para todos os gostos.
Casa arrombada, tranca de ferro. A Globo resolveu ter um surto de moralidade, expulsando um dos envolvidos. E entendeu que desta forma fica tudo resolvido. “Estamos em paz com a audiência e com os patrocinadores”. Não necessariamente nessa ordem.
Bacana também é o tratamento de decência que recebem as novelas da Globo nos chamados ‘horários nobres’. “Impróprio para menores de 10 anos”, me avisa a emissora através de minúsculos caracteres na tela. Isso porque, em cada bloco intercalado por comerciais, pelo menos um casal aparece em cenas ‘calientes’, supostamente nu embaixo de lençóis. Quando digo um casal não me refiro necessariamente à conjugação homem-mulher. Já sei, leitores: estão me taxando de retrógrado e conservador em pleno século XXI, né? Desculpe, mas quando a imposição vem goela abaixo é bom lembrar que num país onde Tiririca é deputado federal e Michel Teló referência mundial como movimento artístico-cultural, a vida imita a arte e até na ficção é preciso ter limites. Vamos aos fatos: ninguém sai de um coma profundo por cinco anos e volta à vida normal sem nenhum tipo de sequela. Ninguém de sã consciência aplaude pateticamente o pôr-do-sol todos os finais de tarde e dança funk 24 horas por dia até se transformar numa pop star. Ninguém ganha na Mega-Sena e sai resolvendo os problemas de um bairro inteiro e de diversas famílias da vizinhança por pura e absoluta bondade. Com tudo isso e muito mais, quem tem filho pré-adolescente em casa fica impotente para contra-argumentar de que ‘a vida não é tão simples assim’ e - principalmente - que liberdade passa longe de libertinagem. Então, nesse caso, sou conservador sim, graças a Deus.
Vamos adiante. Dificilmente qualquer personagem adolescente começa ou termina uma novela sem engravidar. Às vezes nem é do namorado. O pai da criança pode ser apenas algum amigo, ficante, amigo do amigo, primo do vizinho do tio do amigo, conhecido talvez, se tanto. Não lembro de nenhuma personagem adolescente das mais famosas novelas globais que não engravidou durante a trama. Está no roteiro: não basta ser adolescente, tem que engravidar!!!
Não costumo assistir ao “Malhação”, mas as poucas vezes que ‘passei diante da TV’ quando o seriado está no ar, me arrepio com aquele verdadeiro desserviço à educação dos filhos em plena cinco e meia da tarde. Um bando de adolescentes mal-educados, sem limites, classe média-alta, que curtem noitadas, bebem, falam gírias incompreensíveis agravadas pelo sotaque carioquês, passam os dias ‘azarando’ alguém na praia ou diante do computador e trocam de parceiros como se troca de roupa. E ainda insinua que repetir o ano várias vezes na escola é normal nessa idade: ‘faz parte do perfil’...
Qual a solução? Pedir ajuda ao controle remoto? Não deixar os filhos assistirem às novelas? Não permitir que eles vejam TV? Sem chance!!! Isso é humanamente impossível. Se veta a TV, eles vão para a internet. E aí troca-se o ruim pelo perigoso. Diante de tudo isso, só me resta terminar esse bloco de texto da mesma forma que comecei: falando em estupro. Em se tratando de televisão ele é inevitável. Então, relaxa... finge que não está ouvindo alguém dizer “ai se eu te pego, assim você me mata”. E nem adianta botar a culpa na Thereza Cristina...
* * *
Por falar em internet, eu sou de um tempo em que a demonstração de risos, por escrito, era ‘ha, ha, ha’. Hoje é ‘uhshsuahsuahsuahsua’ ou ‘kkkkkkkkk’. Deve ser a risada do Mutley, o cachorro do Dick Vigarista.
Daniel Andriotti
Publicado em 21/1/12.
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