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Quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

26/01/2015 - 09h30min

Leandro André

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O Piano do Itapuí

Em 1991, atuei como diretor Cultural do Clube Itapuí em Guaíba. Fui convidado a participar da diretoria pelo presidente Régis Calegari. Minha primeira ação no cargo foi resgatar o piano, que estava abandonado num canto, servindo de suporte para caixas de arquivos.

Após intensa e complicada pesquisa, descobri o endereço de um senhor, em Porto Alegre, que além de consertar pianos, também afinava-os, o que é uma raridade. Não foi fácil encontrar aquele vetusto alemão ranzinza. Sem internet e consequentemente sem Google, procurar qualquer coisa era uma batalha dura; encontrar um especialista em consertar e afinar pianos era missão quase impossível.

Depois de muito insistir, por telefone, o teutônico aceitou avaliar o piano do Itapuí, mas tive que levar o instrumento até a sua oficina no Bairro Cidade Baixa em Porto Alegre. Transportar um piano é outra encrenca das grandes. Alguém me disse que eu gosto de arrumar sarna para me coçar. Essa observação se encaixou muito bem neste caso.

O drama da logística foi grande, mas minha titânica insistência me fez chegar com o piano na casa do alemão por volta das 11h30. Engrolando a língua, com semblante arrogante, o homem corpulento e pele rosada emitiu um som entre a tosse e o latido. Em seguida, avisou que iria avaliar o caso somente após o almoço e sua sesta, o que significava me atender por volta das quinze horas.

Uma Kombi velha com um piano baleado, um calorão infernal, um motorista mal-humorado, um ajudante macilento e eu sob um sol de 40º. O guenzo e enferrujado portão de ferro ainda zunia após ser fechado na minha cara, quando me ocorreu a possibilidade de castigar aquele alemão viperino. O motorista da Kombi me encarava com os olhos vermelhos de sangue e seu ajudante mirava o chão. O suor escorria pelo meu corpo inteiro enquanto minha mente se ocupava em buscar um método cruel para me vingar daquele boche malcriado.

- E aí, vamo ficá aqui feito estauta até as treis? Perguntou o condutor da Kombi. Um ogro, primo segundo de alguém, que havia sido improvisado como motorista, pois havia chegado do Interior de Goiás e fazia bicos por preços módicos. Verba de clube é curta. A intervenção do migrante autônomo me salvou de uma sangrenta cena imaginária.

Respirei fundo, bem fundo, e anunciei a decisão de irmos almoçar e aguardar até que o piano estivesse dentro daquela maldita oficina. O motorista resmungou e antes que se negasse, decretei rugindo: - Nós só voltaremos para Guaíba depois que este piano estiver lá dentro! Meu tom de voz e o sorriso felino não deixaram qualquer dúvida sobre a decisão tomada.

O almoço foi num boteco encardido nas proximidades. Um monumento à bancarrota. O prato do dia era coroado por um bife de nervos acebolado e um ovo em conserva no topo do monte gorduroso. Eu tinha perdido a fome, mas o motorista e seu ajudante disputaram um torneio de garfadas.

Fui até um orelhão telefonar para a minha mulher e avisar que iria demorar. Não havia telefone celular naquela época. Tive que falar rápido, pois só tinha uma fichinha. O aparelho funcionava com fichinhas, quando funcionava.

Ao retornar para a Kombi, estacionada na sombra de um cinamomo, o motorista roncava feito um bezerro, deitado no banco da frente do veículo. O ajudante cochilava encostado na árvore. Ele tinha um louva-deus tatuado no braço. Ao analisar a cena, percebi que a Kombi era torta, com ferrugem na base das portas e o pneu dianteiro esquerdo era careca como o Fonso. Percebi também o quanto o piano era velho e estava maltratado. Naquele instante, o tempo parecia ter parado. Eu vivia um pesadelo, consertando o mundo a marteladas, enquanto carregava um piano nas costas no Sudão.

Depois de uma eternidade de sofrimento, chegou o momento de voltar a casa do vetusto alemão. Bati palmas e nada. E mais palmas e mais palmas. Desesperado, aplaudia a casa quando a porta de madeira verde se abriu para a passagem daquele grande ser rosado.

Enquanto se aproximava cambaleante, gritava qualquer coisa como “genung! genung!”. Fez sinal para abrirmos o portão maior e estacionar a Kombi no pátio. Eu abri aquele portão com uma habilidade que não sabia possuir. Ajudei o motorista e seu ajudante a descarregar o piano sob a regência do alemão. Depois de muito sacrifício, muito mesmo, o instrumento com peso de elefante aterrissou num cenário da Idade Média. O alemão olhou, olhou mais de perto, apertou umas cinco teclas e disse “chuanarai! chuanarai!” em tom severo. Ele me xingou. Perguntou como eu havia deixado o piano ficar naquele estado. Tentei explicar que eu não era o culpado, mas foi em vão. Ele não me escutava. Após a sessão do “chuanarai”, o alemão segurou o queixo e resmungou.

- Não sei não... E antes que continuasse, eu intervi.

- Não foi fácil trazer este piano até aqui. Portanto, ele vai ficar, o senhor vai analisá-lo com calma e amanhã eu telefono para saber o custo do conserto. O fato do instrumento estar na oficina me deu uma confiança de comandante. E antes de ouvir qualquer ponderação, me despedi com um seco até amanhã.

O alemão consertou e afinou o piano. Ele era rabugento, mas também um baita profissional. E não cobrou muito pelo seu trabalho, foi um valor acessível, considerando o estado degradado do piano. Acabamos amigos, pois ele valorizou o meu esforço, e eu, o seu talento e desprendimento material. Final feliz.

Com o resgate do instrumento, decidi promover um evento para apresentá-lo à sociedade. Um jantar com um concerto de piano.

Não foi fácil encontrar um pianista em Guaíba e ainda disposto a tocar de graça. Após nova insistência titânica, consegui convencer a Professora Soraia.

Salão lotado, emoção à flor da pele e o piano polido com cinco mãos de lustra-móveis no centro do palco.

Tudo parecia tranquilo, quando cinco minutos antes da apresentação, a Professora Soraia, sentindo o peso da responsabilidade, devido ao número de pessoas presentes, me chamou para dizer que não estava segura e que não pretendia mais tocar. Não aceitei, é claro. Ponderei a realidade e a levei pela mão até o piano. Após os discursos protocolares, a professora avisou com voz trêmula que não tinha muita experiência e tal. Eu emendei, dizendo, sorridente, tratar-se de falsa modéstia. E como um cover do Silvio Santos anunciei o concerto. A professora tocou quatro músicas populares e o povo aplaudiu entusiasmado. Naquele momento, tirei um piano das costas.

Atualmente, o velho instrumento está novamente desativado na Secretaria do Itapuí.

Pinga com preço de direto

Usuários do transporte fluvial queixam-se de que, em algumas linhas do catamarã, estão pagando passagem de direto, mas o serviço é de pinga. Eu explico. Na tarde de quarta-feira, 21, por exemplo, passageiros que pegaram o catamarã das 15 horas, em Porto Alegre, tiveram que aguardar durante longos minutos na Estação do Barra Shopping, na Zona Sul da Capital, para o embarque de mais passageiros. Resumo da ópera: a viagem entre Porto Alegre e Guaíba, com duração de aproximadamente 20 minutos, leva 42 minutos quando faz a parada no meio do caminho. A tarifa é a mesma: R$ 7,35. Pinga com preço de direto. Isso não está certo.

A Igreja Matriz

Quando cheguei para trabalhar em Guaíba, há mais de trinta anos, o interior da Igreja Nossa Senhora do Livramento, a Matriz, era muito mais bonito do que hoje. Havia um confessionário de madeira todo trabalhado; uma obra de arte. Altar de madeira e imagens barrocas. Com o tempo, as peças antigas foram desaparecendo. Até forro de plástico foi implantado.

Esses dias, questionei ao meu amigo Breno Bornhorst sobre as alterações (para pior) no interior da Igreja Matriz. Ele me disse que o confessionário de madeira foi cedido para a Igreja da Paz, na Zona Sul da Cidade, e que uma imagem barroca estava sendo resgatada de uma igreja em Eldorado do Sul. O Breno me disse também que o atual pároco, o padre Gustavo André Haupenthal, valoriza a memória e consequentemente as peças antigas. Com isso, está negociando o retorno do confessionário para a Igreja Matriz. Que bacana, Padre Gustavo. Espero que a comunidade católica local se engaje nessa proposta de preservação da memória e de resgate da antiga e bela Igreja Matriz.

Sinalização de Trânsito

A leitora Vera Deicke reclama da precariedade da sinalização de trânsito em Guaíba. Disse que, no trajeto da Escola CIEP, na Cohab, até o Centro, há falhas com as placas indicando o limite de velocidade, mas mesmo assim o radar é colocado em pontos estratégicos. Em relação às faixas de segurança, há muitas quase invisíveis.

Conforme já escrevi, concordo com a fiscalização de trânsito, principalmente porque existem muitos motoristas que desrespeitam a legislação, provocando riscos e acidentes graves. No entanto, para fiscalizar, a Prefeitura tem de fazer a sua parte e sinalizar adequadamente as vias. Se isso não acontece, ao invés de fiscalização, teremos arrecadação, simplesmente. Forte, essa!

Ajuda para os Bombeiros

O Corpo de Bombeiros de Guaíba e Região está em apuros. Que eu lembre, a situação nunca esteve tão crítica, apesar de que estão sempre correndo atrás da máquina. E toda esta luta é para nos salvar quando necessitamos de ajuda. Veja matéria nesta edição.

O vice-prefeito Rogério Souza, que é do PMDB, deveria pedir uma audiência urgente com o Governo e solicitar ação governamental para melhorar a situação da Corporação. Fica o alerta.

Correios, uma empresa ultrapassada

Aumentam as reclamações em relação aos serviços dos Correios em Guaíba. Na semana passada, a Gazeta publicou queixas em relação aos atrasos de correspondências. A empresa disse que está fazendo mutirão para colocar a entrega em dia.

Essa semana, a reclamação foi em relação às filas na agência da Rua Santa Catarina para a retirada de correspondências. Faltam funcionários.

Eu entendo que a empresa estatal de Correios e Telégrafos está ficando ultrapassada. Como se não bastassem os constantes atrasos, não entregam correspondências em endereços onde é preciso subir escadas. Detalhe: se não for Sedex, sequer avisam a chegada de cartas registradas. É lamentável.

Leandro André

[email protected]

Publicado em 24/1/15.

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