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 25/08/2008 - 09h48min
Daniel Andriotti
daniel.andriotti@gazetacentro-sul.com.br
Sem ídolos, cofres raspados
 
O esporte, definitivamente, não vive sem ídolos.
Muitas vezes nos perguntamos (e a resposta certamente nos incomoda) por quê um jogador de futebol ganha tanto dinheiro, sendo via-de-regra, um semi-analfabeto. Em última instância e por uma análise simplista, é porque provavelmente ele seja um atleta carismático e dotado de uma qualificação técnica e tática um tantinho acima de outros mortais que já se atrevaram a chutar uma bola um dia.
A Olimpíada, que está na reta final, não faria tanto sucesso sem os grandes nomes da competição. O que nos leva a ficar longas horas e até madrugadas adentro esperando essas criaturas mostrarem o que eles são capaz de fazer e que nós não conseguimos.
A mesma coisa acontece no futebol. Sem ídolos, os clubes perdem seu poder de atração para os torcedores. Esvaziam o estádio e os cofres. Mesmo com a pressão paterna, criança nenhuma passaria a torcer por um determinado clube se ele não tivesse um grande ídolo no momento da escolha. Pode ser um exagero, mas acreditem: muitos vão ao estádio apenas para ver seu ídolo de perto no gramado. Mesmo que muitas vezes ele nem toque na bola.
Atualmente, ficamos espantados com garotos que compram camisetas de times europeus e sabem na ponta da língua as escalações das equipes do velho continente. É simples: nesses times estão os ídolos da garotada, como Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Robinho, só para citar três brasileiros. E o pior: eles não se restringem apenas aos “nossos”. Já faz parte da rotina desses jovens torcedores nomes como Drogba, Messi, Eth’o e Ibrahimovic, entre outros.
Mas quais são os grandes ídolos que atuam no nosso país e que ainda servem de referência para seus torcedores? A crise é tão séria que os dois principais (segundo pesquisa do DataFolha) são goleiros: Rogério Ceni (São Paulo) e Marcos (Palmeiras). Candidatos a ídolos de torcida tivemos aos montes nos últimos anos, mas eles foram vendidos antes de fazerem história nos seus clubes. Só nos dois maiores times gaúchos “pratas da casa” como Lucas, Anderson e Carlos Eduardo (Grêmio); Pato, Sobis e agora Renan (Inter) foram embora sem ao menos cair “nas graças da torcida”. Muitos deles, sem sequer disputarem um Gre-Nal.
É difícil para leigos como eu, aceitar que é impossível manter esses jogadores por aqui. “É a selvageria do poder econômico”, me dizem. Mas o que confunde meus nerônias é que a saída de jogadores “acima da média” não parece sequer amenizar o desequilíbrio financeiro dos clubes. Em muitos casos, além de perder uma referência e acabar com uma campanha que poderia terminar com a conquista de um título, os clubes acabam tendo prejuízos financeiros já que, no desespero e na pressão da torcida e da imprensa, acabam gastando mais em contratações duvidosas na esperança de suprir a saída do jogador que foi embora. Adivinhem, leitores, de quem estou falando?
É preciso lembrar ainda que a maioria dos nossos grandes times tornou-se meras vitrines para atletas. Com isso, dirigentes “entregam” o patrimônio dos clubes: contratações erradas, folha de pagamento inchada, plantel de pernas-de-pau, resultados catastróficos dentro do campo, dívidas. Portas abertas para a escravidão subordinada a investidores e empresários.
Talvez um dia os clubes aprendam a valorizar um ídolo no time. Em médio prazo, o sacrifício de manter um jogador acima da média no elenco vai render muito mais lucro do que uma transação feita no desespero.
Tem clube que vai completar um século no ano que vem e ainda não percebeu que este tipo de incompetência administrativa ecoa diretamente no vestiário. Dali vai pro campo. Do campo para a arquibancada e da arquibancada pra mesa do bar, que é onde estão aqueles que, em última instância, vão pagar a conta.

Daniel Andriotti
danielba@terra.com.br
 
 
 
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