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Segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

29/11/2019 - 14h10min

Leandro André

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As Três Crianças Negras

Quando se fala em consciência negra é preciso observar atentamente o que se passa a nossa volta.

Há cerca de cinco anos, durante uma ida ao supermercado em um shopping center de Porto Alegre, enquanto minha mulher fazia as compras, eu decidi ficar na praça de alimentação bebendo café. A Cristina gosta de ler as letras pequenas, comparar preços e refletir sobre produtos, analisando atentamente as embalagens antes de decidir comprar, o que me causa desconforto e comichão. Então, muitas vezes fico esperando na praça de alimentação ou em uma livraria.

Naquele dia, eu bebia um expresso e observava o movimento no entorno. Percebi que as pessoas idosas se interessavam intensamente por doces, em especial, as mulheres. Quase todas as senhoras paravam em frente a uma confeitaria e observavam atentamente as apetitosas e brilhantes tortas expostas no balcão. Algumas não resistiam e compravam fatias generosas, que consumiam nas mesas próximas, acompanhadas por xícaras de café com leite.

Seguia observando a movimentação das pessoas no shopping até que uma cena me chamou a atenção. No corredor, à direta da minha mesa, vinham caminhando três crianças negras de braços entrelaçados, como na brincadeira “nem por ouro nem por prata, nem por sangue da lagarta”; os antigos sabem do que estou falando. Lá vinham as três crianças negras abraçadas em passos rápidos. As roupas puídas denunciavam que eram pobres.
Era uma escadinha: uma menina de uns nove anos de idade na ponta de lá, um menino de uns sete anos no meio e outra menina de uns cinco anos na ponta de cá. Eles tinham cabelos bem curtos e a aparência indicava escassez de banho. O contraste do cenário e das demais pessoas em cena com aquelas crianças me provocou um sentimento de angústia, meu peito apertou e o aperto foi se intensificando na medida em que as crianças se aproximavam. Elas estavam assustadas, tensas, e logo percebi que o encaixe dos braços era para se protegerem das outras pessoas. Então, fui envolvido por um sentimento de tristeza. Três crianças negras e pobres enfrentavam os frequentadores do shopping; isso mesmo, enfrentavam. Nada foi dito e não havia nada escrito, mas os semblantes das crianças denunciavam o medo da discriminação. Ao passarem pela minha mesa, a cena começou a seguir em câmera lenta enquanto uma bateria de perguntas ocupava minha mente. O que elas estariam sentindo? Como viam as outras pessoas? Por que crianças tão pequenas estavam tão tensas por estarem em um shopping? Alguns desviavam do trio infantil como se estivessem se livrando de uma encrenca, outros sequer olhavam para as crianças, como se fossem invisíveis. Provavelmente não fui o único a me comover, mas não percebi.

Bem na minha frente, a menina mais velha me olhou, parecia ter sentido meu constrangimento. Foi um olhar triste, mas de guerreira, de quem enfrentava com dignidade, aos nove anos de idade, uma batalha injusta. Uma bola de fogo já ocupava o meu estômago e meu peito tinha o tamanho de uma ervilha. Pensei em chamá-los e oferecer um sorvete; pensei em chamá-los para conversar; pensei em pedir desculpas; pensei em abraçá-los. Pensei e pensei, mas tive medo de ser mal interpretado, então apenas sorri para aquela valente menina de 9 anos de idade que se aventurou a cruzar um shopping center com seus irmãos pobres, vestidos com roupas puídas. Nunca mais os esqueci. A cena é atual.

Lá se foram as três crianças negras em direção à porta. Desde então, tenho feito muitas perguntas, cujas respostas convergem à causa de nossas vidas serem tão difíceis. Nenhum dinheiro ou tecnologia, por mais avançada que seja, podem nos trazer paz e felicidade de verdade enquanto a discriminação racial e a desigualdade social não saírem de cena.

APAE Referência

Essa semana, estive visitando a APAE de Guaíba para fazer a reportagem que a Gazeta traz nesta edição. Um trabalho grandioso é feito lá; um trabalho humano. Muitas coisas me chamaram a atenção, como a organização, a limpeza, os serviços prestados, mas o que mais me impressionou foi o amor dedicado às crianças, revelados nos olhos brilhando durante as narrativas do trabalho realizado, principalmente quando a equipe diretiva se referia à participação e aos avanços dos alunos.

Na minha visita, percebi que a Prefeitura ajuda a APAE, mas por obrigação, não como uma amiga; percebi que a Instituição recebe ajuda da sociedade, mas falta um pouco mais, pelo menos para garantir o pagamento da folha salarial. Minha sugestão é que visitem a APAE.

Eu Amo Guaíba

A Expressão “Eu Amo (coração) Guaíba” foi implantada no meio do Parque Natural, a Sala Verde. Ver a contracapa desta edição. Uma afirmação de autoestima que o Joaquim Mello (nosso colunista do Espaço do Sim) ressaltou quando foi secretário da Setudec lá na década de 1990. Ele usa esta afirmação no rodapé de sua Coluna desde que começou a escrevê-la uma vez por mês na Gazeta.

A expressão é forte e tem quem faça crítica e até ridicularize a Instalação, considerando os diversos problemas pendentes da Cidade. Cada um que se expresse como quiser. Eu entendo que transcender a questão governamental e perceber a Cidade como sua, fazendo uma foto atrás do letreiro, é atitude de quem se importa com a Aldeia. Amar o lugar onde se vive é amar a si mesmo e a comunidade a que pertence. Parabéns pela iniciativa!



Leandro André

[email protected]

Publicado em 23/11/2019.

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