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Terça-feira, 20 de outubro de 2020

14/09/2020 - 15h02min

Daniel Andriotti

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O Poder da Vaia

Quem conhece um pouquinho só de futebol, vai entender. Em tese, somente duas coisas incomodam a performance de um jogador profissional: a primeira, lógico, é o dinheiro. Salário atrasado, premiações, direitos de imagem e até mesmo aquela pontinha de ciúme pelo fato de um colega de vestiário – tido como craque – ganhar dez vezes mais do que a maioria do grupo. A segunda é a vaia. Já escrevi aqui outras tantas vezes que eu sou um defensor incondicional da vaia. A vaia, no futebol, é a voz coletiva do torcedor. Ela é o termômetro que mede a relação entre quem está na arquibancada e quem está dentro do campo.


A vaia já me fez ser criticado por muitos amigos e até mesmo por colorados que nem conheço. Nesse caso é aquele sujeito que teve o azar de ficar ao meu lado no estádio quando a ‘coisa não está boa’. E isso ocorre, muitas vezes, antes mesmo do jogo começar. Basta eu discordar da escalação deste ou daquele jogador anunciado pelo alto-falante. Integrantes de torcidas organizadas já me confidenciaram que quando a fase é nebulosa, o jogo é ‘de risco’ e alguns jogadores estão ‘na mira’ da torcida, a própria direção ‘orienta’ que a ‘charanga’ fique fazendo barulho o tempo todo com o objetivo de minimizar o ‘desprezo’ do torcedor por algum atleta. Ou até mesmo pelo time todo, dependendo da atuação ou do resultado...


Só que com a volta dos jogos ainda em período de pandemia – e, portanto, com estádios sem público – os times que jogam em casa adotaram o sistema ‘torcida fake’: um disk jockey fica colocando no sistema de som do estádio aqueles cantos de incentivo – normalmente criados pelas abomináveis torcidas organizadas – além de aplausos, gritos de gol e até o tradicional “uuuuhhh” quando a bola passa rente a trave. Isso ficou muito cômodo para o time que joga em casa porque o DJ contratado pelo clube jamais vai colocar um som de vaia para passes errados, para falta de empenho, para ‘corpo mole’ ou para ruindade explícita deste ou daquele jogador.


Então vejamos a atual situação desse ‘novo normal’ do futebol: o atleta entra em campo, jogue bem ou jogue mal será sempre aplaudido pelo sistema de som. Seja qual for o resultado do jogo, vai sair do estádio sem ser importunado pela pressão de alguns torcedores, entrar em seu mega carrão importado e ir embora na mais absoluta tranquilidade, sabendo que ao final do mês seu salário de não menos de seis dígitos antes da vírgula estará na sua conta bancária. Isso explica, em tese e sobremaneira, a qualidade duvidosa da maioria dos times nessas primeiras rodadas do campeonato brasileiro da série A.




Enquanto seres humanos, este está sendo um ano totalmente diferente para todos nós. Mas esse setembro será ainda mais cruel para os gaúchos. É aquele mês em que se comemora a nossa rebeldia mesmo que derrotada. Sem desfile, sem rodeios, sem acampamentos, sem tertúlias, cantorias, fandangos, sem o mate na cuia que passa de mão em mão, sem as intermináveis churrascadas cujas sobras darão origem ao arroz-carreteiro. É cruel para o índio mais queixo duro e até para o gaúcho de ocasião, aquele que de outubro a agosto veste jeans, dança funk e mal sabe diferenciar um cavalo de uma ovelha. Mas quando chega setembro, encarna o espírito do bagualismo, veste a pilcha emprestada, declama Jayme Caetano Braun e não pode ver um cabo de vassoura jogado ao chão que até arrisca uns passos de chula.


Vai-te embora, Covid. Ou iremos te despedaçar num talonaço de adaga.



Daniel Andriotti

Publicado em 11/9/20

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