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Terça-feira, 20 de outubro de 2020

07/09/2020 - 11h21min

Daniel Andriotti

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Profecia e imunidade

“Nada do que foi será,

de novo do jeito que já foi um dia...”<
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Quando compôs essa música, há 37 anos, Lulu Santos certamente não imaginava o tamanho da profecia que estava fazendo mas que só iria se concretizar em pleno século XXI. Previsão essa de fazer inveja a Nostradamus. Com a letra, Lulu Santos praticamente instituiu o hino do chamado ‘novo normal’ que estamos vivendo nesse meio ano de pandemia. “Tudo passa, tudo sempre passará...” é a frase em que nossa eterna esperança se agarra. “Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo...”. Para isso, basta cinco minutos de telejornalismo de qualquer emissora. E a frase-chave para o distanciamento social é: “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo. Agora, há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre: como uma onda no mar...”.


Descobrimos, em meio as mortes causadas pela Covid, que João não é mais de Deus e a Lis não é mais Flor.... que se cheire. Aliás, a pastora, missionária, cantora gospel e deputada federal – juntamente com seus 55 filhos, alguns adotivos e outros biológicos de diferentes gerações – é líder de uma facção criminosa familiar acusada pelo assassinato do também pastor Anderson do Carmo de Souza que, no dia do crime era marido dela e ‘gestor dos negócios da família’, mas que antes e em algum momento da vida foi filho adotivo e genro da deputada, não necessariamente nessa ordem. Difícil de entender, né leitor?

Vamos por partes: pela morte do pastor Anderson, cinco filhos integrantes da família-quadrilha estão presos. Entre eles, um que admitiu ter dado seis dos 30 tiros que a perícia identificou no corpo do padrasto. Pela lógica matemática, faltam 24 tiros para fechar essa conta. Mas nos depoimentos da turma que ‘ainda’ está em liberdade – formada por filhos, tios, irmãos, cunhadas, sobrinhos e netos – há referências a traições, tentativas de assassinato, brigas, dinheiro, incesto, relações extraconjugais e abusos sexuais. A polícia também apurou que na noite do crime, o casal Flordelis e Anderson estiveram numa casa de swing que frequentavam há algum tempo. Sim, swing, troca de casais... Ficou um pouco mais claro agora, né?

Religião, dinheiro, sexo e crime. Tudo o que uma novela do horário nobre precisa para que um bom roteiro invada os lares brasileiros. Até morrer, Anderson foi praticamente um Highlander, o guerreiro imortal: a polícia apurou que Flordelis já havia tentado envenenar o filho-genro-marido-empresário em pelo menos seis oportunidades, além de contratar pistoleiros para ‘fazer o serviço’ em outras duas vezes.

O mais revoltante nisso tudo é que a Constituição Federal contempla uma absurda imunidade parlamentar também conhecida como “foro privilegiado”, que impede congressistas de serem processados criminalmente e julgados pela justiça comum desde que não haja flagrante delito inafiançável. Fora isso, todo e qualquer crime envolvendo parlamentares vai para as “mãos do STF”. Graças a essa aberração jurídica, a cadeia terá que esperar um pouco mais pela entrada triunfal de criminosas de alta periculosidade como é o caso da deputada Flordelis. A respeito de ‘imunidade parlamentar’, nossa ruidosa parcela da sociedade – de diferentes cores e correntes ideológicas que costuma protestar contra tudo e contra todos –, não se manifesta...


Diz um velho ditado árabe: enquanto os cães roubam, a caravana passa. Estou falando de futebol. O grupo do Inter tem muitos jogadores abaixo da média? Sim. O treinador é teimoso? Sim. A direção é, por vezes, omissa? Sim. Tem alguém na frente do Inter na tabela? Não.

Daniel Andriotti

Publicado em 04/9/20.

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