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Terça-feira, 07 de julho de 2020

23/03/2020 - 09h31min

Daniel Andriotti

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Neurose coletiva

O mundo está em surto. Em pânico. Em desespero.

Em pouco mais de 72 horas a existência humana na terra passou a ser questionada. Absolutamente tudo mudou. A nossa velha rotina, da qual muitas vezes reclamávamos, não existe mais. Pelo menos por enquanto. A fobia social fez as ruas ficarem desertas, os restaurantes, os clubes, os bares, as academias, os shoppings, as empresas...tudo vazio. Os únicos lugares onde ainda vemos pessoas reunidas são nas farmácias e, infelizmente, nos hospitais. O resto está entocado feito tatu. Tem ainda o bloco dos ‘sem noção’ reunido em alguns supermercados: criaturas egoístas empurrando carrinhos cheios de papel higiênico. Não existe essa necessidade. A expressão de sobrevivência é clausura e readaptação.

Ainda penso que nosso maior desafio é manter a saúde... mental. Ocorre que para não se contaminar com o vírus, as pessoas se ‘auto medicam’ de más notícias. E então, são tomadas pelo pânico provocado pelo excesso de mensagens que recebemos pelo WhatsApp. A quantidade de áudios e vídeos alarmantes que servem para nada são de infectar qualquer vivente mais ingênuo. Os ‘especialistas’ estão por toda a parte e não dão quarentena para seus dedos nervosos na hora de enviarem um bombardeio de bobagens. Principalmente sobre as tragédias.

No estado de calamidade em que nos encontramos – como nunca antes na história recente do mundo – a espécie humana tende a optar sempre pelo lado negativo das coisas. Somos pessimistas por natureza esquecendo que o medo derruba a nossa imunidade. Sofremos de uma grande incapacidade de discutir, de forma equilibrada, as nossas mazelas. Tanto nas questões pessoais, quanto nas coletivas. A imprensa, de um modo geral, explora isso e nos convida a ir por esse caminho. E a gente tem por costume se apegar naquilo que nos mete medo. Portanto, é hora do ‘filtro’ da enxurrada de informações que recebemos enquanto o mundo agoniza. Isso inclui o que se lê, o que se vê e o que se ouve.

Um dos tantos ‘x e y’ dessa questão envolvendo o Coronavírus é que no momento em que olhamos para um número de infectados, ele rapidamente se torna muito maior porque sua progressão é aritmética: vai dobrando ou triplicando em poucas horas, em poucos dias. E sem estratégias de contenção, o vírus não tem por que parar de se espalhar num curto prazo de tempo.  Tudo o que estamos vivendo é um remédio extremamente amargo mas penso que o Brasil – bem ou mal – está fazendo o que China e Itália não fizeram. Ou adiaram as decisões do que precisava ser feito.

Mesmo que com tantas incertas de como se propaga o vírus, não sabemos direito como ou se o distanciamento social pode funcionar bem num país como o Brasil. No Rio, por exemplo, as favelas concentram milhares de pessoas muito próximas umas das outras. Tudo isso associado à precariedade dos serviços de saúde pública e, agora sabemos, privada também. Parece que temos dois únicos caminhos: um, viver em risco – ir para a rua e se entregar pro inimigo oculto – e o outro, sucumbir ao medo, como se pudéssemos nos embalsamar com álcool gel e entrar para debaixo da coberta. O ideal não é uma coisa nem a outra. Precisamos seguir tentando funcionar normalmente, pensando e agindo com serenidade, precaução e coerência, fugindo da paralisação, da letargia, do medo e, principalmente, das fake news. E sofrendo sim, cada vez mais, com a falta de um abraço, de um beijo e de um aperto de mão.

Daniel Andriotti

[email protected]

Publicado em 21/3/20.

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