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Sexta-feira, 03 de abril de 2020

06/03/2020 - 14h46min

Daniel Andriotti

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A capa dos Corações Solitários

Em junho de 67, os Beatles lançaram o álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Mas não é sobre as músicas dele que eu quero falar. E sim sobre a primeira capa dupla da indústria fonográfica e que trazia, de forma inédita, as letras de todas as músicas impressas. Para quem não conhece (ou não lembra) é aquela que tem um mosaico feito por colagens com a imagem de 70 pessoas ilustres dos mais diferentes segmentos. E, é claro, uma foto dos quatro integrantes da banda em primeiro plano vestindo túnicas militares coloridas e segurando instrumentos de sopro. Imagens essas, pintadas a mão e coladas em um papelão para que fosse possível lhes dar silhueta.

A ideia inicial desse layout foi de Paul McCartney. Disse que quando estavam em estúdio gravando as músicas do disco ele sugeriu que os demais integrantes fizessem uma relação de quem eram os seus ídolos. Em princípio, fariam quadros com as fotos das figuras que eles adoravam para emoldurar a capa. Na imagem estão, entre os mais ‘populares’, Fred Astaire, Toni Curtis, Marlon Brando, Marilyn Monroe, Bette Davis, Marlene Dietrich, Bob Dylan, entre outros. O problema não é esse grupinho. Imagine essa capa produzida no Brasil dos dias atuais, num ambiente da mais absoluta polaridade em que vivemos e de um discutível politicamente correto, onde tudo pode, mas nada tanto assim. Nessa turma estão, por exemplo, Karl Marx, filósofo alemão, socialista ortodoxo, autor de “O Manifesto Comunista” e uma espécie de profeta de que a classe trabalhadora chegaria ao poder com a inevitável falência do capitalismo. Aqui, haveria um manifesto na avenida Paulista em frente à FIESP apoiado pela direita conservadora pró-Bolsonaro. Outro: Robert Peel, político britânico do século 19, duas vezes primeiro ministro e um dos fundadores do Partido Conservador. Mais tarde, ingressou numa ‘vibe’ mais liberal sendo considerado traidor. Aqui, seria uma espécie de ídolo no MDB. Mais um: Carl Jung, suíço que fundou a psicologia analítica. Responsável por disseminar conceitos como “arquétipo” e “inconsciente coletivo”. A geração da contracultura se interessou por ele devido à sua exploração de temas pouco convencionais, como discos voadores e a alquimia. Nesse caso, seria idolatrado pela esquadrilha da fumaça jamaicana do Brasil, mas questionado sobre a ausência de Sigmund Freund ao seu lado.

Na moldura também aparece Albert Einstein, físico alemão responsável por alguns dos grandes feitos científicos do século 20 como a Teoria da Relatividade. Suas descobertas foram fundamentais para o desenvolvimento da física quântica e da energia nuclear. Einstein, entretanto, foi um pacifista e ativista em prol do desarmamento. Sofreria pressão da indústria bélica, mas a adoração de todos os quadros do PSOL.

Outro ilustre retratado foi Petty Girl, um americano cuja especialidade era pinturas de pin-ups, modelos voluptuosas em poses provocativas. Levaria chumbo da Ministra Damares Alves. Oscar Wild também está lá. Escritor e dramaturgo inglês, conhecido pela sátira ácida dos ricos e bem-nascidos. Por isso, no Brasil, seria ídolo da esquerda raivosa avessa ao sistema capitalista e opressor e, como foi preso por “homossexualismo”, prática ilegal na Inglaterra do fim do século 19, seria ovacionado pela comunidade LGBT.

E pra encerrar: Jesus Cristo, Adolf Hitler e Mahatma Gandhi foram citados e chegaram até a ser emoldurados num primeiro momento, mas... por motivos óbvios, foram ocultados. No Brasil, o primeiro teria o desprezo de ateus e demais praticantes da intolerância religiosa. O segundo, a ironia dos judeus. E Gandhi, teria a simpatia de todos os gaúchos. Em 1930, ele realizou a "Marcha do Sal" levando a Índia à desobediência civil. Tratava-se de uma marcha de quase 200 quilômetros em direção ao mar, reunindo dezenas de milhares de manifestantes.

Tudo o que a gauchada faz no verão.

Daniel Andriotti

[email protected]

Publicado em 07/3/20.

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