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Quinta-feira, 24 de setembro de 2020

09/01/2020 - 09h11min

Daniel Andriotti

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Como destruir seu réveillon

Gaúchos e gaúchas de todas as querências já sabem: de dezembro a março o seu lugar é na Free-Way. Não importa se você mora na zona sul de Porto Alegre, no interior de Tucunduva ou em São Borja na divisa com Santo Tomé. Quando chega o fim do ano, todos os caminhos levam ao litoral. Um dia isso foi chique e estiloso. Hoje, nem tanto....

Quando a gauchada, em peso, ocupa a Free-Way e segue para o litoral a gente consegue entender, na prática, a Teoria da Relatividade. A percepção do tempo muda a partir do seu lugar no espaço. Porto Alegre e Torres – só para não sair do Rio Grande, por exemplo –, são separadas por 183 quilômetros que, sendo otimista e em circunstâncias normais, podem ser percorridos em duas horas e pouco, considerando uma média de 90 km/h. No final de ano e no Carnaval esse mesmo percurso pode levar de quatro a dez horas. Na cidade, nesse intervalo, você almoça, vai ao cinema, passa na livraria, toma um café... enquanto a turma do calção e do chinelinho, dentro dos carros percorreram algo como... 50 quilômetros.

Uma vez na praia, você pode finalmente se livrar do seu complexo de culpa pequeno-burguês e se sentir um flagelado da seca. Suado e sujo, você anda na areia quente carregando guarda-sol, cuia, bomba, erva-mate, isopor, baldinho, pazinha, cadeira, bolsa, bola, esteira, protetor solar, chapéu de palha e, é lógico, o pau de selfie. Conduzida por uma coleira, a cadelinha poodle “Baleia” vai junto. Saco para o lixo, que é bom, não precisa...

Finalmente instalado na areia quente, debaixo de um guarda-sol incapaz de fazer sombra, a tradição manda que você se alimente de alguma gororoba pingando óleo de trinta e cinco frituras enquanto entorna litros de cerveja aguada e morna. Não perca tempo procurando Heineken, Weiss ou Stella Artois. Esse tipo de frescura não combina com o ambiente. “Ceva” no litoral gaúcho só tem três: Skol, Polar e Itaipava. Ambas servidas à temperatura ambiente, que é de 40 graus à sombra. E em copo plástico.

No guarda-sol à sua esquerda, tem um bando de gente tatuada escutando funk. À direita é a mesma coisa, só que a música é sertaneja. A praia pode estar borbulhando, mas você jamais – em hipótese alguma – verá alguém ouvindo Miles Davis ou Norah Jones. É funk e sertanejo. Em volume 10. E ponto.

Mas escutar música ruim e tomar cerveja quente até que faz sentido, pois só existe uma maneira de ser feliz nesse ambiente: ignorar vozes humanas e estar abduzido pelo álcool. A sobriedade é muito perigosa quando você está suado, salgado, besuntado de uma meleca formada por bronzeador e areia e ardendo debaixo de um sol senegalês. Sem o entorpecimento proporcionado pela Itaipava e pela Marília Mendonça, você pode se dar conta do vazio que é a existência humana na Terra....

No 31 de dezembro, é preciso assistir à queima de fogos. É quando, além de suado, salgado, sujo de areia, melecado de bronzeador, com uma cerveja quente na mão e cercado de nativos ouvindo funk, você ainda pode ser atingido por um rojão – além da cadelinha Baleia, que vai surtar com o bombardeio desenfreado.

No dia seguinte – ou no dia 2, tanto faz –, com aquela ressaca infernal e a cabeça que parece um bombo leguero é hora de voltar para a Free-Way. Você gasta outras cinco, sete, doze horas com todos dormindo dentro do carro. Até a Baleia. Só que agora, sua pele arde como um pimentão vermelho e você transpira feito um porco: praticamente um leitão à pururuca sobre rodas. Em casa, se joga no sofá e promete a si mesmo que nunca mais repetirá essa viagem aos quintos dos infernos. Mas basta fazer um calorzinho em setembro e você já está com tudo pronto para passar o réveillon no litoral. De novo.

Seja grato, mas não espere que os outros sejam. A gratidão é uma virtude de poucos.

Daniel Andriotti

[email protected]

Publicado em 11/1/2020.

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