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Segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

27/12/2019 - 10h27min

Daniel Andriotti

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20 e poucos anos

No final dos anos 70, Fábio Júnior, numa das suas raras composições decentes, escreveu: “...nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos. Quero saber bem mais que os meus 20 e poucos anos...”

Essa letra de música resume bem o que quero dizer daqui pra frente. Quando você se torna adolescente é inevitável que passe a sofrer uma pressão da família, dos amigos e dos amigos da família para “ter um relacionamento”. Daí, “pelo sim; pelo não”, você começa a namorar alguém. Vamos em frente: terminado o ensino médio, te cobram o noivado – daquele ou de outro relacionamento – ao mesmo tempo em que você precisa passar no vestibular. Ok, você dá um duro danado e alguns anos depois conclui a graduação. Vem a formatura. “Agora já pode casar”, é o que muitos te sugerem quase que como imposição. Mas você não tem um emprego? Ah, verdade. Uma vez recém-formado, batalha, batalha e após muita batalha, consegue um emprego, mas... te julgam pelo salário baixo. “Assim não dá para ter filhos”, é o argumento dos palpiteiros. Para ganhar uma promoção, você precisa fazer um mestrado, uma pós-graduação, um doutorado, falar quatro ou cinco línguas...

Com todos esses compromissos você será criticado por não cuidar do corpo. Tá gordo, desleixado, você vai adoecer. Então, chama a nutricionista, faz dieta e se matricula numa academia. E será torpedeado porque abandonou a família. Ok, você se dedica de corpo e alma à família e... um grupo de pessoas passa a te lembrar que você mora de aluguel: não tem casa própria??? Que absurdo!!!

Isso me leva a crer que os 20 e poucos anos estão matando muita gente. Você mal entendeu o que quer da vida e a sociedade – muitas vezes hipócrita – te cobra tudo: graduação, pós-graduação, casamento, filhos, casa própria, corpo sarado, seis idiomas e carro do ano. Mas ninguém te diz quanto isso custa. A vida começa com uma cobrança gigantesca e um emprego com salário bruto de R$ 1.200 reais. Isso pra você poder “ser alguém” na vida. E o tempo vai passando. E você abre o “Insta”, o “Face”... e nessas plataformas as fotos mostram que todo mundo está super feliz porque “venceram na vida” e certamente estão melhor do que você. A ansiedade aparece gritando que seu salário é uma miséria, você descobre que o ‘pra sempre é cada vez mais curto’ e sua vida só anda pra trás. Portanto, você é um fracassado.

Ainda não terminou: quanto mais você amadurece, menor fica seu círculo de amizade. As baladas são escassas e pouco divertidas. Suas noitadas se resumem a raríssimas festas de casamentos, formaturas e alguns velórios. Você descobre que muitos dos seus amigos não eram tão amigos assim. E começa a se culpar por erros que não cometeu. Com o ‘amadurecimento precoce’ sua maior vontade é não mais entender os outros; e sim, entender a si próprio.

A vida parece se alternar em dias médios e horríveis. O tempo passa mais rápido. Você lembra de ontem e se dá conta que se passaram 10 anos. Os 20 e poucos não são legais. Com 15 a gente não sabe nem fazer currículo, com 25 tem que ter uma empresa de sucesso. Não importa nossa saúde psicológica, nem emocional, nem física. Não importa se estamos infelizes, ansiosos ou depressivos. O que importa é se você “é alguém”. Parece bobeira, mas enquanto a sociedade só vê dinheiro, a gente vai morrendo por ser tanta coisa que não quer (ou não pode) ser. Mas isso ninguém vê.

Vade retro 2019, doze meses da mais absoluta ingratidão. Poucas pessoas me disseram que você foi um ano bom. Então, deixe 2020 te substituir. Feche a porta e apague a luz. E não olhe para trás...



Daniel Andriotti

[email protected]

Publicado em 28/12/2019.

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