13/02/2012 - 09h16min
O mundo dá muitas voltas, dizia uma senhora para qualquer acontecimento que não fizesse parte de sua descomplicada rotina diária. Quando encontrava uma das ex-colegas normalistas ou viajava para a praia, se comprasse um abajur novo ou recebesse aumento na aposentadoria, lá vinha o dito que a tudo servia.
Nada havia, para ela, que não pudesse encerrar com aquela frase quase perfeita. Jamais se soube de alguém que a tenha contestado, orgulhava-se de sempre acertar em cheio com o seu comentário. Ao final das contas, todos sabiam que o mundo em que vivemos (Planeta Terra) passa a vida dando voltas - em si mesmo para contar os dias, e em torno do Sol, para marcar os anos da nossa existência terrena. E ponto final.
Faz tempo que não a vejo, mas tenho certeza de que segue citando a mesma frase para todas as inversões que andam acontecendo nos velhos e nos novos continentes. E a repetiria, é claro, se eu lhe contasse sobre os brasileiros agora serem os queridos visitantes da Europa e dos Estados Unidos, de termos nos transformado nos japoneses deste século; que o Velho Mundo se esqueceu, de repente, da tal superioridade cultural que fazia questão de nos mostrar. E no momento em que eu terminasse essa minha exposição, viria a certeira afirmação: o mundo dá muitas voltas.
Aquela criatura experiente sequer precisaria raciocinar além do habitual ao ouvir que, apesar de todos afirmarmos com convicção que o melhor futebol do Planeta é dessas terras esplêndidas e de não admitirmos qualquer comparação entre Pelé e Maradona, Ronaldino Gaúcho e Teves, quando estamos nos estádios a realidade é outra, aprovamos cem por cento a entrada de um hermano para defender o nosso time do coração.
Atire a primeira pedra o gremista que já não aplaudiu o técnico quando Escudero ou Miralles foram anunciados entre os onze. E não ousem os colorados na contestação de nomes como D’Alessandro e Guiñazu na equipe principal. É assim que funciona, no gramado, com a bola rolando em pleno campeonato, todo torcedor que se preza suspira aliviado quando um argentino vai para o aquecimento. O mundo dá muitas voltas.
Nestes dias de mudanças extraordinárias de comportamento, penso com frequência naquela sábia mulher e no meu professor de Ciências do ginásio. Ambos gostavam de falar sobre as muitas voltas que o Planeta dá – ela chamava de Mundo, e ele, de Terra.
Eram de um tempo em que os japoneses salvavam o turismo, estavam em todos os lugares, carregando suas máquinas fotográficas penduradas no pescoço, feito troféus de tecnologia, causando certa pontinha de inveja aos estrangeiros de outros costados. Hoje, esse lugar é dos brasileiros, os novos passeadores. Somos os atuais japoneses do Mundo.
E os argentinos, que um dia foram simplesmente sul-americanos, por sua vez, fazem por aqui o papel que fazemos lá fora - são os nossos japoneses, com suas carteiras cheias de cartões de crédito e notas graúdas, lotando as sorveterias praianas, os restaurantes de frutos do mar, as lojas de moda. A qualquer hora do dia ou da noite, metade mais um dos presentes nos famosos balneários catarinenses, com certeza, são nascidos e criados na Argentina, conterrâneos do Messi, que tanto admiramos.
Dos quatro costados, brasileiros querem um argentino jogando em seu time do coração; e no turismo, tornaram-se o que já foram os japoneses. Enquanto eles, os nipônicos, estão ficando como nós éramos, coadjuvantes, enfrentando problemas. As russas são camareiras dos países nórdicos; os tchecos, negociantes informais; italianos estão empobrecendo, gregos sem saberem o que fazer da vida, franceses com medo de tudo, americanos sem teto.
Definitivamente, como afirmava aquela mulher que conheci, o mundo dá muitas voltas. Em si mesmo, marcando os dias, e em torno do Sol, somando os anos, de acordo com meu professor de Ciências do ginásio, que o chamava de Terra.
Cristina André
Publicado em 11/2/12.
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