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Terça-feira, 09 de junho de 2026

06/02/2012 - 09h05min

Comportamento

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Tem coisas que a gente só fala pra eles

Dia sim, outro também, a prática da vida me mostra o quanto minha mãe e suas irmãs eram dotadas de simplicidade e sabedoria – tive sorte no quesito tias. Não me refiro aos ensinamentos de sala de aula, pois todas elas estudaram pouco – na época em que foram jovens, os bancos escolares saíam de cena ainda na adolescência feminina; e os universitários eram destinados às moças mais ousadas e independentes, geralmente solteiras e nascidas nas grandes cidades.

O que sempre me faz pensar na mãe e nas tias, nessa insistência em me deixar encantada com todas elas nas pequenas lembranças, está diretamente ligado às frases bonitas e cheias de ensinamentos que costumavam dizer, aos valiosos conselhos sobre afetos e valores, às exemplares ações de respeito ao ser humano em que foram peritas. E o melhor de tudo, aos ditados que citavam nas conversas cotidianas, entrecortados por amenidades e sorrisos felizes - minha mãe e suas irmãs também se especializaram nisso. Hoje, posso tirar a prova real de todos aqueles ditos; comprovo, todo dia, que me serviram como luvas parisienses de fina pelica.

De volta à casa materna, depois de um dia cheio de atividades, conversávamos na grande cozinha. Nestas horas, novela romântica passando na tevê, tricôs e doces em calda seguiam sendo feitos entre assuntos diversos, de dramas comoventes e reais até gafes cometidas em viagens; de orações milagrosas aos fatos pitorescos passados antigamente na fazenda dos avós. Receitas de bolos, amostras de pontos complicados da nova revista, opiniões sobre vestidos de noivas e seus ex-pretendentes - eu, quieta e atenta aos comentários, fazia pesquisas no velho e bom Tesouro da Juventude, nas moderníssimas enciclopédias Barsa e Delta La Rousse.

Minha mãe e suas irmãs eram sensíveis e sábias, tive muita sorte por nascer entre elas. Costumava ouvi-las com atenção e curiosidade, e hoje só faço tirar a prova real de tudo o que diziam.

Sobre os casamentos, ouvi de uma tia, em cinzenta e fria tarde de prosa caseira, enquanto o café era servido perto do fogão à lenha, que há duas fases na vida de uma mulher em que ela precisa sobremaneira da companhia do marido: quando os filhos nascem e quando eles se tornam adultos. Na primeira, ele é o apoio imprescindível para a nova etapa que se inicia, a trajetória de ser mãe; na segunda, sua figura masculina ao lado representa a vida que ainda aponta para o futuro, o amor que sobreviveu, ultrapassando barreiras, o romance que se fez inabalável.

De outra irmã da mãe, durante festa de aniversário, testemunhei um conselho admirável dado a uma amiga sua que enfrentava dificuldades de relacionamento com o companheiro de tantos anos. Depois de escutar com atenção quele desabafo, observou que não se deve ficar junto de alguém por obrigação ou precisão, porque o amor verdadeiro é muito maior do que apenas isso, é um sentimento que nos faz carecer da outra pessoa por razões do coração, pura e simplesmente, jamais pela riqueza material que por ventura possa proporcionar.

Foi assim, escutando com atenção as boas conversas das pessoas mais velhas, especialmente da mãe e das tias, que aprendi muito sobre a vida e seus ditados certeiros. Uma das mais interessantes lições me foi dada quando uma delas visitou uma amiga que enviuvara precocemente. Sabendo que aquela mulher estava sofrendo pela ausência do grande amor de sua vida, da mesma forma como um dia já havia sofrido, tentou confortá-la com seu próprio exemplo. Disse-lhe frases bonitas sobre os casamentos e a felicidade que certos pares conhecem, da sorte que existe nesses encontros. Contudo, não conseguindo fingir que a vida seguiria normalmente, quis preparar a amiga para os dias de solidão que fatalmente chegariam. E observou, com delicadeza, que ela precisaria encarar uma realidade diferente. E concluiu:

“Não adianta, tem coisas que a gente só fala pra eles”.

Cristina André

[email protected]

Publicado em 4/2/12.

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