30/01/2012 - 09h10min
Gosto de observar, nas conversas informais, como nossas rotinas profissionais ficam escancaradas nas expressões que utilizamos. Em todos os momentos, inclusive nos festivos e de completa descontração, o dia a dia de trabalho deixa-se transparecer através de termos técnicos e opiniões, característicos de cada labuta. Professores falam de educação e conhecimento; os de História, citam o Renascimento pelo menos umas duas vezes, e os de Física dão um jeito de lembrar de Newton e Einstein até para exemplificar banalidades. Para os músicos, acontecimentos têm ritmo, compasso e plágio; os atletas capricham mais no destaque da presença física; advogados dizem data vênia e outras latinidades antigas; médicos contam sobre os milhões de bactérias em cada prato servido. E os economistas, diferenciando-se sobremaneira de todos os outros, gostam de nos aconselhar a adiar a vida.
Dia desses, assisti a uma entrevista com experiente e famoso economista. Ele dava conselhos a uma moça para consertar a confusão financeira em que ela se metera, com débito e crédito completamente desregulados pelo carnê da universidade e a boa apresentação exigida no trabalho.
O especialista em finanças, que em outras ocasiões falara sobre chuvas e secas derrubando ações da bolsa, em casamentos reais, nos riscos econômicos do mundo, tratou do assunto em questão - a pobre moça aguardava por soluções, aflita e esperançosa. Como se ela entendesse tintim por tintim do que ele tinha falado sobre crises, taxas e índices, finalmente veio o tradicional aconselhamento: não faça contas, use as mesmas roupas do ano passado, não frequente salões de beleza, não gaste com livros ou CDs, não compre tevê de tela plana, não faça passeios, esqueça os restaurantes. Apenas junte dinheiro, economize, disse o homem àquela guria na flor da idade. Daqui a alguns anos, então, volte ao mercado para comprar o que quiser à vista, determinou.
E foi assim que aquele profissional das finanças concluiu a entrevista, com ares de quem pré-julgara a pobre moça como culpada, sem direito a defesa, dando o tradicional arremate ao discurso, dizendo a ela que simplesmente poupasse, guardasse dinheiro e não se metesse em prestações. Encerrou com a pergunta imponente: “Você sabe quanto terá daqui a trinta anos se, em vez de ir ao cinema e comprar sapatos novos, guardar quarenta reais por mês?”. Como se o tempo parasse e a vida daquela universitária pudesse ser adiada para recomeçar daqui a três décadas.
Balancei a cabeça em negativa e até achei graça. Então era esse o importante conselho para a consertação das finanças pessoais daquela guria, adiar a existência. Logo para ela, que precisa andar bem vestida, uma exigência do emprego, tendo que se manter bem informada e com a cultura geral em dia.
Francamente, às vezes acho que alguns especialistas passam dos limites, em particular, certos economistas que tenho ouvido. Enquanto falam de taxas, índices e bolsas de valores em Tóquio e Nova York para explicarem sobre o tomate gaúcho ter subido de preço no mercado ali da esquina, tudo bem. Mas aconselharem uma jovem estudante a adiar a vida por 30 anos, aí já é demais.
Cristina André
Publicado em 28/1/12.
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