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Terça-feira, 09 de junho de 2026

23/01/2012 - 09h14min

Comportamento

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O dia em que o Pinhal ganhou da Disney

Criancice é um estado de espírito inexplicável, uma espécie de encantamento pela vida, seja ela do jeito que for - sinônimo da mais pura felicidade. Quando está no comando das nossas férias de verão, pequenas poças depois da chuva podem parecer intermináveis corredeiras, com suas histórias de aventuras, seus segredos e profundezas. Até o tanque de lavar roupas da mãe, de repente, se faz espaçoso rio por onde navegam tampas de achocolatados cheias de minúsculas bonecas - iates e tripulações que inventamos. É na infância, no primeiro ato desse nosso controverso espetáculo terreno, que ninguém precisa de praias paradisíacas, de festas com gente famosa, aviões ou trens-bala para se alegrar; porque tudo é possível no extraordinário mundo de simplicidade e fantasia que criamos.

Neste tempo de faz-de-conta, eu adorava estar na Praia do Pinhal, disparado o melhor lugar de todo o mundo. Era lá que passávamos as férias de verão, eu e meus primos, brincando embaixo de uma grande figueira que havia no pátio, gritando com medo dos sapos enormes, comendo puxa-puxa depois do almoço, jogando escova e sete e meio. Na pequena casa de madeira, sempre havia muito mais gente do que deveria, e a hospedagem se dava pela matemática familiar dos colchões espalhados pelo chão.

Naquele nosso querido balneário, saíamos depois da janta para comprar sorvete, pés descalços e dinheiro contado. Pegávamos a avenida principal, passávamos pela rua dos italianos, onde o Seu Zamprogna tinha a casa mais bonita - abanávamos para a sua família. Logo, logo, avistávamos o postinho de saúde e o minimercado; depois, era só atravessar a rua que levava ao clube, na direção do mar, e chegávamos enfim na sorveteria, bem perto do Osso da Baleia, o grande ponto turístico. Na volta à casa, entre risos soltos, passávamos o dia em revista, comentávamos banhos de sol e de mar, planejávamos passeio a Cidreira, lembrávamos das visitas, dos jogos de caçador e de cartas.

Jamais nos cativou a ideia de veranear nas praias mais movimentadas, como Tramandaí e Capão da Canoa. Para nós, a felicidade de estar no Pinhal começava a ser construída na Páscoa e se concretizava no Ano-Novo. Nada conseguia nos deixar mais contentes.

Mas houve um dia em que o próprio Papai Noel nos desafiou. De Natal, uma das minhas primas ganharia uma viagem ao mundo encantado de Walt Disney, nos Estados Unidos. Para surpresa de todos os adultos da família, não da nossa, quando ela soube, desatou num choro descontrolado e triste, repetindo que não queria viajar, não queria viajar, não queria viajar. E nós, olhando para a guria e o seu pânico porque perderia o verão na nossa pequena praia, nos abatemos também; afinal, devia ser muito triste estar em outro lugar no verão. Coitadinha, ter que ir para Disney, que sacrifício, pensávamos.

Contudo, diante daquele desespero infantil, contrariados mas comovidos pelas lágrimas da filha, seus pais anunciaram o cancelamento da tal viagem e deixaram que ela passasse as férias escolares na praia, para a nossa alegria. Em vez de conhecer o Mickey e a Minnie, a Branca de Neve e os Sete Anões, e a Margarida, minha prima escolheu pular carnaval na SAP (Sociedade Amigos do Pinhal), ouvir boas histórias na varanda da casa, dar comidinha aos sapos, jogar varetas e fazer castelos de areia.

Foi um dia inesquecível, aquele da nossa criancice, em que o Pinhal ganhou da Disney.

Cristina André

[email protected]

Publicado em 21/1/12.

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