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Terça-feira, 20 de outubro de 2020

10/08/2020 - 09h52min

Comportamento

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Os Vira-latas e a Geni

Toda vez que percebo a Europa e os Estados Unidos usando o Brasil como um lugar para apontar holofotes e distrair seu próprio povo dos problemas locais, me entristece saber que muita gente concorda com isso. Verdade seja dita, a mania de nos colocarmos em um patamar inferior às demais nações, em todas as áreas, parece ter sido tatuada em nós. Faz tempo que é difundida, inclusive por intelectuais como o escritor Monteiro Lobato.


Há uma expressão que resume, genericamente, essa nossa recorrente baixa autoestima como “brasileiros”. Foi criada pelo escritor e jornalista Nelson Rodrigues, depois da Seleção ter sido derrotada pelos uruguaios, em pleno Maracanã, na final da Copa do Mundo de 1950. O trauma foi tão forte, de acordo com o escritor, que nós ficamos com um “complexo de vira-latas” que ultrapassou as fronteiras do futebol.


E a metáfora de Chico Buarque, em sua composição “Geni e o Zepelim”, escrita na década de setenta para o musical “Ópera do Malandro”, também se refere a isso. A canção ficou famosa pela extensa e escrachada letra; tanto que, com o tempo, passou a ser chamada de “Joga pedra na Geni”, frase que faz parte do refrão.


O compositor canta a história de uma mulher que se prostituía e ninguém respeitava. Até o dia em que um balão dirigível (zepelim), vindo de terras distantes, pairou sobre a cidade e seu comandante, achando o lugar muito feio, apontou diversos canhões para os edifícios; decidira tudo explodir.


De repente, porém, anunciou que desistiria da ideia se pudesse namorar a bela Geni. O povo, então, implorou a ela que fizesse a vontade do comandante, mas ela se negou, talvez por represália aos maus-tratos gratuitos. Contudo, foram todos tão insistentes - até o prefeito implorou - que ela concordou, salvando a cidade.


E quando o Zepelim partiu, a pobre Geni estava certa de que, dali em diante, seria bem tratada por todos. Qual nada! O buylling continuou como era antes, todos gritando “Joga pedra na Geni”.


Pensei em tudo isso quando li, em grande jornal brasileiro, essa semana, sobre estudo feito no Brasil, por uma universidade europeia, a respeito da taxa de transmissão do coronavírus entre fevereiro e maio. E a comparação com outros países da Europa, destacando-nos como problemáticos.


Dizia a nota que no Brasil a taxa média era de três; ou seja, cada infectado passou o vírus para outras três pessoas; dois foram capazes de infectar outros seis. A maior taxa, se comparada com países como Itália, Reino Unido, França e Espanha, nos quais esse índice ficou entre dois e meio e dois vírgula seis, ou seja, dois passaram para cinco. E encerrava assim: “Para que a transmissão de uma infecção seja contida, esse número tem que ficar abaixo de um”.


Chega de sermos tratados como os vira-latas do mundo, não queremos ser a Geni da Ópera do Malandro!



Cristina André

[email protected]

Publicado em 07/8/20.

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