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Sexta-feira, 25 de setembro de 2020

06/07/2020 - 09h51min

Comportamento

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Lições de Simplicidade

Nestes tempos de ficar em casa, a vida parece ter tirado o pé do acelerador. E essa calmaria imposta pelas circunstâncias abriu espaço para lembranças que estavam acomodadas no coração, de um tempo que ficou nos calendários de outro século.


Tricotando uma manta, tarde dessas, tachinho no fogo com doce de abóbora sendo preparado, pensei na importância de ter aprendido a manusear agulhas e fios de lã aos seis anos, com a irmã adotiva que me cuidava. Ela era canhota, e até hoje acho graça quando me perguntam por que sou destra para tudo, menos para o tricô.


Gostava muito de ver o trabalho materno, construindo blusões que nos aqueceriam, com seus pontos especiais e suas golas altas, enquanto doces em calda passavam horas em um tacho sobre o fogão a lenha. Sempre quis aprender tudo aquilo para me parecer com ela. São preciosas, as lições caseiras.


Eis que também me lembro de quando fui estudante do Ginásio Cônego Scherer, das boas aulas que tive, de Educação para o Lar e Artes Industriais, entre outras disciplinas que, com o tempo, foram perdendo valor para a sociedade e desapareceram dos currículos.


Foi naquela querida escola que, certa vez, tivemos que levar um botão, retalho de tecido, agulha e linha de costura, para que a professora nos ensinasse a pregar botão e fazer bainha. Mas um dos meninos da turma não levou, argumentando, com voz baixa e bochecha vermelha de criança encabulada, que aquilo “era coisa de menina”. E a professora, rebatendo com delicadeza e propriedade o que ele dissera, deu grandiosa e inesquecível lição.


Pediu a atenção de todos em sala e explicou: “Ações relacionadas com a própria sobrevivência não são de menina ou de menino, mas de todas as pessoas. Aprender a cuidar da roupa que usa, a preparar sua refeição, a manter limpo e organizado o ambiente em que vive são ensinamentos que todos deveriam receber”.


Em outra disciplina, com a ajuda do professor que manuseava máquinas no espaço das técnicas industriais, aprendemos a fazer presentes para familiares sem precisar pedir dinheiro aos pais. Ele nos orientou, semanas antes, para que guardássemos alguns objetos de sucata para o tal trabalho manual. Eu consegui um vidro de perfume vazio, da minha irmã mais velha, que era justamente quem eu presentearia no aniversário.


Quando chegou o dia daquela aula, fui para a escola entusiasmada. No final do período, saí encantada com o vaso de flores que eu mesma fizera, pintura imitando carvalho escuro. Feliz da vida com os elogios do professor.


Ao chegar em casa e mostrar à mãe o que havia feito para presentear a Mana, pela voz materna recebi outra maravilhosa lição: “Os melhores presentes são estes, que a gente mesmo faz pensando na pessoa que o receberá. Tua irmã vai adorar!”.


Nestes dias de distanciamento social, a vida parece que desacelerou. E foi nessa calmaria imposta, tarde dessas, tricotando uma manta, tachinho no fogo com doce de abóbora, que me emocionei com inesquecíveis lições de simplicidade que tive na infância. Em casa e na escola.

Cristina André

[email protected]

Publicado em 03/7/20

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